terça-feira, 4 de agosto de 2009

letargia

um dia eu comentei que recém havia adquirido um certo conformismo, e me julgaram. conformismo não é bom, menina! engraçado. eu que sabia tanto disso, eu que fiquei tanto tempo inconformada. eu que nem ao menos falei sério quando disse aquilo. engraçado. realmente engraçado terem julgado meu conformismo-relâmpago. quando todos seguem a marcha sem se questionar a respeito da direção, sem nem mesmo ter ciência da presença dos demais. e eu sentada na calçada esperando o cortejo passar. até que alguém que marchava me dirigiu algumas palavras, que eu julguei. como pode você ter-se levantado da calçada para marchar também?
porque não adianta ficar parado esperando o mundo mudar. simples. pelo menos, marchando você segue em frente. mesmo que você e o cortejo não cheguem ao mesmo lugar.



Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram que os ventos às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro, um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro, um disparo para um coração

A vida imita o vídeo, garotos inventam um novo inglês
Vivendo num país sedento um momento de embriaguez

Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter

Um dia me disseram quem eram os donos da situação
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão
E tudo ficou tão claro, o que era raro ficou comum
Como um dia depois do outro
Como um dia, um dia comum

Quem ocupa o trono tem culpa
Quem oculta o crime também
Quem duvida da vida tem culpa
Quem evita a dúvida também tem.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

o anel e o véu

é tão assustador perceber-se tão dentro de algo, que a ausência esvazia até os pulmões. assustador saber que eu me afogaria se não estivesse tão mergulhada no mundo que nós criamos, no refúgio seco e quente, com raízes e asas, que me faz querer morrer só de pensar em ter que sair do meu aquário pra esse mundo cinza e frio e molhado lá fora. as horas apostam corrida com as gotas de chuva - e vencem. e me dá vontade de jogar fora tudo o que tenha mais de um ano, tudo o que veio antes de ti. há tanto espaço no meu aquário que me sinto espalhada, como minhas roupas. me sinto distante de mim, como se eu não conseguisse mais me situar inteira em um lugar só, não conseguisse juntar todos os meus cacos. o engraçado é que, se eu me permitisse usar metáforas como já usei um dia, eu diria que tu és a cola, sabe como é. eu me sinto inteira quando estou contigo. e isso me assusta. isso e saber que eu gosto disso. que não sei mais viver sem isso. que não quero nunca mais precisar lembrar como é viver de outro jeito.
eu tinha desacreditado tanto, de tantas coisas. casamento, novelas, religião (como eu li agora há pouco)... continuo não gostando de novelas. continuo tendo minha própria fé e meu próprio modo de me comunicar com aquela coisa que chamam de Deus. continuo achando que os políticos não prestam, que o capitalismo te suga, que o mundo tá todo torto. mas, se você me aparecesse com um anel, eu vestiria um véu e diria SIM.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

sobre lidar com a perda (do que nunca se teve)

pronto, aceitei. sério. sei que demorou, que eu fiquei um bom tempo tentando encontrar motivos, que por muitos meses eu culpei a mudança, não quis enxergar. tentei me iludir por medo de perder o que eu considerava um porto seguro, e neguei até a última que sempre foi assim, que o circo já estava armado muito antes de eu chegar. bá, eu tentei. mas agora já vi que eu era só mais um carrinho da montanha-russa, e que ela tem uma cor pra cada vagão. foi difícil e, agora, o meu maior medo é que eu não sinta nenhuma falta. sabe? porque eu nunca tive, mesmo.
eu tive um personagem, criado só pra mim, uma máscara que era usada dia e noite, e até mudava um pouco de acordo com a luz. mas nada além de uma máscara pintada com minhas cores preferidas, que alguém usou por um tempo, e então substituiu por outra e deixou largada no canto da sala.


sexta-feira, 8 de maio de 2009

não esqueça

um dia, você acorda e o mundo está estranho. algo muito diferente, indistinguível. as pessoas parecem não estar ali de verdade, a paisagem parece colada com fita durex. você se pergunta se esqueceu de acordar. aos poucos, a ficha vai caindo... o mundo não está estranho, as pessoas são exatamente as mesmas. tudo está perfeitamente igual. o que mudou, então?
ora, VOCÊ! algo aconteceu à noite? o que queriam dizer aquelas estrelas cadentes, aquele colchão na calçada, aquele assalto armado cometido às escuras por pessoas em quem você confiava?
tudo. o mundo está em colapso, e você já sabia disto. mas neste dia, neste dia em especial, você percebe a gravidade da crise. e aí se dá conta de que aquela sensação de dormência era, na verdade, um despertar. você acordou e deu de cara com um mundo cinza, com pessoas feitas de pano e cordões invisíveis presos às articulações, e você entra em crise por ter passado tanto tempo dormindo, e por não ser capaz de acordar mais ninguém.
o mundo não é descartável, por que ninguém percebe isto? o que todos estão tão ocupados fazendo que os impede de enxergar o que está bem debaixo do nariz? por que você demorou tanto a perceber? será que os outros vão notar também?
você acorda e percebe que o mundo como você conhece é uma mentira, não há lugar seguro, não há proteção, não há recursos. suas mãos tremem, você tem um ataque de nervos, uma crise de choro, porque sabe que não tem volta. as coisas não voltarão a ser como eram.
e é aí, exatamente aí, que a única pessoa com quem você achou que podia contar te dá as costas.

terça-feira, 5 de maio de 2009

rabiscos remotos

de longe, te esqueço.
de perto, te quero mais próximo.
somos ímãs - de pólos opostos.
ímãs de metal polido,
de metal barato. rachado.
por um muro vítreo separados.
(percebo: nesta história há algo de errado)
como pode, em um par de ímãs
haver atração apenas de um lado?


___


permito-me
(deste ponto)
percebo-te
(quase morto)
proíbo-me
(desaponto)
persigo-te
(não te encontro)

___


como pode um ponto de interrogação
mudar de uma frase inteira a intenção?




(sem data)

domingo, 3 de maio de 2009

frio é ausência de calor

comecei a sentir frio quando entrei no ônibus, mas não por causa do clima, e sim pela falta do teu corpo, das tuas mãos, do teu calor. depois que nos despedimos, eu ainda olhei para trás na esperança de te ver; quando sentei na poltrona, olhei para fora mesmo sabendo que não estarias ali. mas tive certeza de que me olhavas, independente de onde estivesses.

sim, posso fazer minhas tais palavras.

"E minha mão esquerda tocava uma ausência sobre a cama."

Ela começou sentindo duas coisas: um frio nos pés e uma ausência nas mãos. Achou que talvez a música estivesse alta demais, mas deixou como estava. Colocou o pijama na cama, mas não vestiu. Deitou-se e encostou os pés na coberta, mas não se cobriu. É que não importava, entende? Nada daquilo. Que importa a intensidade do som, se ela estava ouvindo sozinha?
Ela sentiu sono, mas não dormiu. Olhou as paredes forradas de papéis colados, as frases escritas em nanquim, a falta de cortina disfarçada com cartazes, a falta de cor disfarçada com lembranças. Afinal, de que adiantaria vestir um pijama e manter os pés quentes? De que valeria estar confortável? Suas mãos doeram, e ela não parou de escrever. Havia tanto a ser dito! Estralou os dedos, deu uma olhada em volta, prestou atenção nos versos doces da música que acompanhou o começo de tudo, como se o universo quisesse provar que havia testemunhas. De que adiantaria dormir e depois acordar com a mesma ausência na mão esquerda?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

16 de abril

"we celebrate the lives of the dead
it's like a man's best party only happens when he dies..."

sábado, 4 de abril de 2009

pela liberdade de não-expressão

Dispo-me. De qualquer mentira, de qualquer barreira. Entrego-me ao mundo como ele me foi entregue: nua, a colecionar infinitos. Sem máscara, sem proteção. Com a cara lavada, saio às ruas ondulando minha bandeira, exibindo as cores da minha não-causa, cantando meu hino desafinado pra ninguém ouvir. Sem tom, sem paixão. Até que eu descubra a letra.

segunda-feira, 30 de março de 2009

yellow white pink stripes

Uma meia sem par,
do tamanho do meu polegar.
Esquecida no posto de gasolina,
como foi que caiu do pé da menina?
De quem foste não sei,
então por que te guardei?
Para que me lembrar
do que nem mesmo sei?