Nenhum pensamento ao meu alcance, tudo o que parece fazer sentido encontra-se longe demais, do lado de fora da esfera blindada que me cerca. As palavras fogem, como de costume... já há algum tempo elas me traem. Nenhum pensamento, nenhum sentimento, nenhuma palavra. Só esta angústia oca, essa casca furtacor que não envolve nada além de fumaça, essa linha tracejada... em branco. Como preencher esta falta de não-sei-o-quê? Com algum líquido que se encaixe em qualquer espaço disforme, ou um pó. Mais uma vez, cinzas e água do mar? O infinito carbonizou há tanto tempo que já se misturou em qualquer coisa solvente o suficiente para evaporar e virar nuvem que não chove mais. E a minha tempestade, cadê? Já joguei fora o guarda-chuva e, ainda assim, ela não vem.quarta-feira, 26 de março de 2008
Sobra tanta falta
Nenhum pensamento ao meu alcance, tudo o que parece fazer sentido encontra-se longe demais, do lado de fora da esfera blindada que me cerca. As palavras fogem, como de costume... já há algum tempo elas me traem. Nenhum pensamento, nenhum sentimento, nenhuma palavra. Só esta angústia oca, essa casca furtacor que não envolve nada além de fumaça, essa linha tracejada... em branco. Como preencher esta falta de não-sei-o-quê? Com algum líquido que se encaixe em qualquer espaço disforme, ou um pó. Mais uma vez, cinzas e água do mar? O infinito carbonizou há tanto tempo que já se misturou em qualquer coisa solvente o suficiente para evaporar e virar nuvem que não chove mais. E a minha tempestade, cadê? Já joguei fora o guarda-chuva e, ainda assim, ela não vem.terça-feira, 25 de março de 2008
Elemento estranho
O bom das fases é que elas passam... e o ruim é que elas podem voltar.Nessas horas, pedir só não adianta. Eu sempre achei que os clichês costumam ser verdadeiros, pois, se não fossem, não se repetiriam até banalizar (e até falei sobre isso aqui um dia desses). E acho realmente que tudo seja uma questão de perspectiva, de pensar positivo. Mas, porra, não dá pra ser assim sempre. Às vezes a gente precisa ouvir isso de outra pessoa pra lembrar que é verdade, porque quando só você repete infinitamente a mesma coisa a si mesmo, a impressão que dá é que você está tentando se enganar. Malditos sejam os escrúpulos que não me abandonam, maldita essa consciência que já nasceu pesada, maldita essa mania de achar que tudo é culpa minha quando não é, e de não perceber quando é. Maldita essa inconstância, esse vazio, esse sentimento de solidão no meio de todos. Cansei de ser essa peça perdida de um quebra-cabeças que não existe, de não me encaixar em lugar nenhum. Quando eu penso que encontrei peças parecidas, vejo que eu só estava entre dois espelhos... Cansei de andar em círculos.
terça-feira, 18 de março de 2008
De tanto não querer
"Voilà, ma petite Amélie, vous n'avez pas des os en verre. Vous pouvez vous cogner à la vraie vie. Si vous laissez passer cette chance, alors avec le temps, c'est votre coeur qui va devenir aussi sec et cassant que mon squelette." (Raymond Dufayel, I'homme de verre)

Não. Ela realmente não queria aquilo. Tinha absoluta certeza que seus caminhos se encontravam em planos diferentes, e nenhuma intersecção valeria à pena. Era um preço que ela não estava disposta a pagar, muito menos naquele momento, em que todas as certezas viravam interrogações. Os vidros da janela estavam embaçados, ela não conseguia enxergar com clareza o lado de fora e, quando se olhava no espelho, perguntava-se quem diabos seria aquela mulher que a encarava de volta. Perdeu a confiança. Ela sabia que de tudo restavam apenas cacos, sobre os quais ela andava com os pés descalços. Mudou de rumo, teve medo de arriscar. Reprovava o modo como vinha agindo e sentindo, condenou-se por ter medo e, a despeito da certeza que tinha do que não queria, guardava dentro de si uma enorme vontade de encontrar algo que fosse capaz de fazê-la mudar de idéia. Não. Ela não sabia. Nem ao menos desconfiava de que tanto havia ainda pela frente.
sábado, 15 de março de 2008
Perspectiva
quarta-feira, 5 de março de 2008
- e levanto.
CANÇÃO EXCÊNTRICA
Ando à procura de espaço
Para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.
(Cecília Meireles)
Ando à procura de espaço
Para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.
(Cecília Meireles)
É incrível como todas as coisas que nos acontecem são repetidas. Também pudera, tantos já viveram antes de nós... E é claro que, no final das contas, as pessoas acabam pensando parecido, vivendo as mesmas crises, ultrapassando as mesmas etapas e chegando às mesmas conclusões. Por isso não fico surpresa ao perceber que absolutamente TUDO o que estou aprendendo agora, a maioria das pessoas já sabe. Isto não afeta, entretanto, a minha descoberta. Até intensifica, eu acho. Porque há tantas verdades escondidas bem debaixo do nosso nariz todo o tempo, as pessoas falam a respeito e nós pensamos saber do que se trata, mas, quando acontece conosco, percebemos o porquê de certas coisas serem ditas como são, os clichês nos atingem, e disto não há quem consiga fugir. O aperto no coração, a pedra no caminho, as voltas da vida, a lei da ação e reação, esse tempo que voa tão rápido... Por que será que estas (e outras) expressões são repetidas a ponto de quase perderem o significado? No final, selecionam-se as pessoas capazes de aprender realmente o que não sabiam, de admitir que, apesar de outros já terem percebido antes de você, o seu tempo é agora. Mais uma verdade cansada: ninguém nasce sabendo. Todos nós passamos pelas mesmas coisas em tempos - e maneiras - diferentes, mas cada um tira um proveito único de cada experiência. Aprender o que todos já sabem não é problema... o problema é ter que aprender novamente o que você já deveria saber.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Sete
Quando viu, a tinta já escorria pelas paredes... vermelha. Líquida até demais. E tinha cheiro de vida e de morte... gosto de ferrugem. O grito não mais ecoava pelas paredes de azulejos. Os cacos ainda seguros na mão esquerda e trêmula, e o susto. A tinta pulsava e o corpo transpirava. Um momento, e só. O pensamento causador de tudo já esquecido, nunca transformado em cicatriz.
sábado, 9 de fevereiro de 2008
(des)encontros
"A vida é a arte dos encontros. Embora haja tantos desencontros pela vida..."
São tantos que se atropelam, e há para todos os gostos. O que seria um desencontro? Um encontro que não aconteceu? Uma coisa que não acontece, para mim, nada é. Desencontros, pois, não existem. O que existe é o que, além de acontecer, ainda te deixa algo para carregar até o fim. A lembrança de um sonho existe mais do que um não-encontro que poderia ter acontecido... Há encontros, em sonhos, que não são esquecidos. Há os breves, os repentinos, os duradouros. Há também vários tipos de marcas, de provas. O tipo que se cola na parede, o que se guarda em caixas, o que se aloja debaixo da pele. De nada adiantam se não são também do tipo que pulsa e que pisca e que brilha e que acende. Mas o que determina a duração de um encontro ou as marcas que dele ficarão? Como saber quando alguém chega para ficar? Como esperar um amanhã tão sem garantias e sem medo de se enganar? Espera-se, não se sabe. Provavelmente a resposta esteja aí, mas de uma resposta surgem sempre mais perguntas. Por que nos dispomos a esperar de uns e de outros não? Como saber, como esperar, por quê? Por que certas perguntas permanecem sem resposta?
domingo, 3 de fevereiro de 2008
Meu segredo mais sincero
Eu sempre tive medo de ter medo. Um poder peculiar ele tem: o de parecer maior do que é. Ele parece inflar quando nos deparamos com ele, mas sempre acabamos esquecendo que ele só tem uma aparência tão assustadora porque o superestimamos e o encaramos muito de perto. Tudo parece maior e mais feio quando chegamos perto demais. Hoje, no entanto, vendo uma onda de medo passar ao meu redor, percebi que ele é uma coisa que, ao contrário de ser ruim, nos faz evoluir - e muito. Enfrentá-lo é uma das coisas (talvez a coisa) que mais faz crescer a alma, amadurecer o espírito. Por isso eu digo que medo foi feito pra ser vencido, e não temido.
Medo não passa daquela famosa pedra que encontramos no caminho. E então, o que fazer? Virar as costas e voltar, desistir do lugar ao qual nos destinamos? Claro que não! Chutar a pedra também pouco adianta, é só dar mais uns passos adiante que nos deparamos com ela outra vez. Não tenha raiva do medo, não dê-lhe um pontapé. Encare-o de frente, mas não caia no seu truque de forjar uma importância maior do que realmente tem. Se ele de fato for muito grande para que você passe por cima, dê a volta: contorne o medo. E se ele for tão grande a ponto de ocupar a estrada inteira? Talvez você pense em empurrá-lo, mas, não só ele continuará com você, como o cansaço vai eventualmente aparecer e fazê-lo parar para recuperar o fôlego. Obviamente, isto acabará atrasando sua jornada. O que fazer então? Eu digo: CRESÇA. Torne-se maior do que o seu medo, passe por cima dele e siga em frente. Alguns de nós precisam dar um passo para trás para fazê-lo encolher-se, mas um passo para trás nos ajuda a enxergar também o que há ao redor, nos dá perspectiva. Eu sei que não é fácil crescer assim, mas com certeza é uma opção mais sedutora do que desistir e voltar atrás...
Ultrapasse o medo. Continue caminhando. Depois de um tempo, olhe para trás e repare como ele agora parece tão pequeno...
Medo não passa daquela famosa pedra que encontramos no caminho. E então, o que fazer? Virar as costas e voltar, desistir do lugar ao qual nos destinamos? Claro que não! Chutar a pedra também pouco adianta, é só dar mais uns passos adiante que nos deparamos com ela outra vez. Não tenha raiva do medo, não dê-lhe um pontapé. Encare-o de frente, mas não caia no seu truque de forjar uma importância maior do que realmente tem. Se ele de fato for muito grande para que você passe por cima, dê a volta: contorne o medo. E se ele for tão grande a ponto de ocupar a estrada inteira? Talvez você pense em empurrá-lo, mas, não só ele continuará com você, como o cansaço vai eventualmente aparecer e fazê-lo parar para recuperar o fôlego. Obviamente, isto acabará atrasando sua jornada. O que fazer então? Eu digo: CRESÇA. Torne-se maior do que o seu medo, passe por cima dele e siga em frente. Alguns de nós precisam dar um passo para trás para fazê-lo encolher-se, mas um passo para trás nos ajuda a enxergar também o que há ao redor, nos dá perspectiva. Eu sei que não é fácil crescer assim, mas com certeza é uma opção mais sedutora do que desistir e voltar atrás...
Ultrapasse o medo. Continue caminhando. Depois de um tempo, olhe para trás e repare como ele agora parece tão pequeno...
♪ E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que tua correnteza não tem direção
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Vida em espiral
- Não acredito! As flores são fracas. Ingênuas. Defendem-se como podem. Elas se julgam poderosas com os seus espinhos...- É preciso que eu tolere duas ou três lagartas se quiser conhecer as borboletas.
E as rosas ficaram desapontadas.
- Sois belas, mas vazias - continuou ele. - Nao se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela quem eu reguei. Foi ela quem pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vento. Foi nela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi ela quem eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus... - disse ele.
- Adeus - disse a raposa. - Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
- O essencial é invisível aos olhos - repetiu o principezinho, para não se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.
"És como um desses botões que cresceu, desabrochou e se tornou uma rosa. E, mesmo com espinhos, ainda és a mais bela das flores."
Quebra-cabeças, torneiras e rosas. Ando em círculos pela vida, como alguém perdido em uma floresta. A cada vez que passo pelo mesmo lugar, porém, não me perco: encontro-me. É como se, a cada volta, eu deixasse pegadas... E depois pisasse nas minhas próprias, e percebesse que meus pés não mais se encaixam nelas, porque cresceram. Eu cresci. Sem deixar de seguir meu próprio caminho, que, apesar de circular, me levará a algo muito importante: meu caminho me leva a mim. Ninguém mais pode seguir meus passos além de mim. O máximo que posso fazer é convidar alguém a caminhar comigo, sem, no entanto, esperar que meu acompanhante demonstre conhecer minha trilha, minha floresta - porque nem mesmo eu a conheço, a despeito do fato de já tê-la percorrido antes. Nenhum mundo pára enquanto eu caminho por ele... Nem mesmo o meu.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
When the sun goes down
Quanto mais o mundo se fecha para mim, mais me fecho para o mundo, e vice-versa. Causa e conseqüência se embaralham no maldito ziguezaguear emocional do qual não consigo fugir, e tudo começa outra vez... Paredes opostas estreitam o aposento, parecem se fechar sobre mim: o mundo cresce lá fora e o meu mundo aperta aqui dentro. Aquela esperança de não estar mais sozinha parece uma luz de poste, daquelas que apagam de repente bem quando a gente passa embaixo, exatamente no momento em que mais brilha, quando as coisas parecem mais claras... Ela simplesmente se cansa de te iluminar quando você menos espera - e quando mais precisa dela. Você se vê sozinho no escuro, e tem receio de chamar ajuda ou companhia, porque não sabe mais se vai receber retorno ou ser repreendido por ter saído tão tarde. Então, você se abaixa e espera sentado na sarjeta, até que algum passante tropece em você, ou até que o poste resolva acender novamente, e permanece ali, parado, torcendo para que não precise esperar até o amanhecer.
Certas pessoas são como a o sol nesses momentos, mas sua luz também precisa iluminar trevas alheias, de vez em quando. A conclusão a que se chega é que é sempre bom andar com uma lanterna - e pilhas novas.
Certas pessoas são como a o sol nesses momentos, mas sua luz também precisa iluminar trevas alheias, de vez em quando. A conclusão a que se chega é que é sempre bom andar com uma lanterna - e pilhas novas.
