sábado, 4 de outubro de 2008

Sim

Abri mão dos embrulhos. O presente veio seco, direto de teus lábios, e não era um beijo. Você sempre soube as palavras certas. Deus sabe que, durante aqueles dias, o meu passatempo era me esconder atrás das cortinas e te observar enquanto pensavas estar sozinho. Conhecer teu eu verdadeiro. E foi tão lindo descobrir que não havia nada a ser descoberto... Te amei ainda mais. E sabes que o fato de saberes que eu só te deixei vir para preencher meu próprio vazio quase me fez pensar que fosses tu, mas o teu "não" foi tão certo, tão ponto final. Eu nem te perguntei, e disseste "não". Te amei ainda. Depois que te flagrei atrás de uma cortina, eu entendi. Nós procurávamos motivos, éramos iguais até no medo. Te amei. Era tão assustador ter algo pleno, era tão definitivo. Nós sabíamos, mas éramos humanos. Que ingênuos fomos ao esquecer este detalhe. Então, sem esperar, te descobri tão humano quanto eu, talvez ainda mais. Separados por uma cortina - era esse o nosso destino? Foi por isso que esperamos uma vida? Mais. Sorrimo-nos de nós mesmos. Não. Não seria assim. Procurávamos por uma certeza, por uma garantia. Encontramos mais do que esperávamos, não soubemos o que fazer e, de repente, tudo ficou claro. Teu "não" se calou para sempre. Disseste o que já sabíamos, com um sorriso dançando nos lábios. E a história não terminou.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

"Só não gosto de você estar sempre tão triste", ele disse, e ela se perguntou se era verdade. Era. Tentou descobrir o motivo da tristeza, e era como se a resposta estivesse pairando à sua frente, invisível. Sentia que havia um porquê, mesmo que não soubesse qual. Uns cinco anos depois, sentada sozinha em um ponto de ônibus, fez-se uma pergunta parecida. Uma segunda pergunta, que respondia a primeira.
Pessoas passavam, sem enxergá-la - sem querer ver. Nós somos invisíveis até o som do grito. As pessoas só enxergam o que querem, e o que grita para elas. Não gritei. Há algum tempo já não quero ser vista por quem não me procura.
Sentiu que eles eram tão parecidos - essas pessoas tristes, que sangram, que sabem demais. É tão ruim estar perto de algo profundo quando não se pode mergulhar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Sobre mãos e asas

[Epf.] Ela era o tipo de pessoa que sempre quis segurar um passarinho. Toda vez que algum se aproximava, ela - sem saber porquê - o espantava. Era quase involuntário. Talvez fosse vontade de saber em que velocidade ele fugiria, saber que efeito seu movimento causaria nele. Talvez fosse medo que ele chegasse perto demais e fosse embora por vontade própria. Ou conseguir segurá-lo entre os dedos e sufocá-lo com a força que fazia para que ele não fugisse. O fato é que ela sabia que não poderia segurar o passarinho para sempre. Jamais cogitou gaoilas - ora, passarinhos nasceram para voar! Mas e se ele resolvesse ficar? E se sentisse que suas mãos eram um ninho? E se ele cantasse todas as manhãs só para vê-la sorrir, saísse para caçar umas minhocas e voltasse todos os dias? Ela se sentiria responsável por ele, o esperaria voltar. Teria medo que não voltasse. O problema era que, por trás do ato impulsivo e involuntário de espantar o passarinho, havia todos estes medos. Todas as possibilidades remotas. E se ele não voltasse? E se ela se encantasse com o cantar de outra ave? E se ele se encantasse com o cantar de outra ave? Ele continuava pulando na direção dela, e então ela pensou que, talvez, se ficasse muito quieta, ele pudesse confundi-la com algum elemento do seu hábitat, como uma árvore, e pousasse em seu ombro. Mas o que isso mudaria, afinal? Que importava que suas mãos fossem capazes de se fechar ao redor do corpo inteiro do pássaro, mesmo que ele não pudesse diferenciá-las de galhos? Ela sabia não poder criar raízes...
Preferia criar asas e voar com ele. Se fosse possível.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O melhor amigo

Ser humano é cachorro, por isso se identifica tanto. É o que eu já te disse, menina, cachorro acostumado a apanhar se esquiva da mão que alimenta. Cachorro preso a vida toda tem medo da rua. Se chegar alguém e abrir o canil, ele até sai, mas com o rabo no meio das pernas, esperando ser pego. Entende? Não, não tô falando dos que fogem correndo, esses já conheciam a rua! É diferente. Se o cachorro for esperto, ele vai ter medo. Vai ter medo até de gato. Cachorro devia ter medo de gato, e não o contrário. Ser humano tem. "Eu não gosto de gatos, eles são traiçoeiros". São? Quando foi que o gato olhou pro dono e jurou lealdade? Ah, faça o favor... Gatos são livres. Pronto, por isso ser humano não gosta. Tem inveja. Se tranca no canil por conta própria, e não entende como os gatos podem sair por aí e ainda lembrarem o caminho de casa. Verdade seja dita, o homem não se sente completamente feliz se não houver ninguém abanando o rabinho pra ele. Pronto, falei. Não, eu não disse que não gosto de cachorros. Eu não disse que não sou humano! É só que me dá raiva, sabe, tentar sair do canil e ainda ter medo dos carros. Eu quero sair, porra. E tem gente me estendendo a mão, e eu sei que não é pra bater. Desta vez. Mas, mesmo assim, eu me esquivo. É reflexo, entende? A vida inteira foi assim. Só conheço isso. É a mesma coisa com passarinhos... Se nasceu na gaiola, não vai saber voar muito longe. Passarinho sabe caçar quando só come alpiste? Sei lá porque não dei esse exemplo desde o começo, ser humano não é passarinho. Não todos. Deixa pra lá. Não, não adianta me estender a mão agora, menina, eu vou segurar, posso até te seguir, mas não me peça pra tirar o rabo do meio das pernas. Espera mais uns quilômetros.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Ainda bem

- Às vezes a gente perde a fé nas outras pessoas, e com motivo. Mas isso é normal, tem tanta gente por aí que não vale à pena, mesmo... Só que tem gente que para, fica estagnada, pensa que não vale à pena se manter na linha de evolução, acham que seriam as únicas. Mas eu digo que, enquanto você continua crescendo, aprendendo, se fodendo pra virar alguma coisa, enquanto você se mantiver puro, bá, que bosta de palavra, mas é isso mesmo, enquanto você se mantiver puro, sempre vai ter alguém por aí merecendo isso, entende? Pode ser difícil de achar, mas existe, sempre existe. E, quando você encontrar essa pessoa, não é melhor que você mereça ela também?
- Hmmm... Acho que é.
...
- Ainda bem que eu te mereço.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Infância tardia

Por não termos a senha da roda-gigante, nos sentamos na xícara, porque ela também anda em círculos. E aí, você começou a girar, nunca me perdendo de vista, sempre me mantendo na posição de único objeto em foco em meio a um borrão multicolorido. Então, você quis mais. Acelerou. Girou tão rápido que tudo ao redor ficou de uma cor só, e meu rosto borrou. Qual o sentido de ir rápido demais quando não se chega a lugar algum? Não, eu não sinto muito por ter gritado até fazer você parar. Eu te puxei pelas mãos e nós saímos juntos - ainda que trôpegos, nauseados. Um pra cada lado.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Fazer o quê?

- Meu filho, é bem simples, só vou falar uma vez: tem gente que precisa se perder pra se encontrar.
- Mas isso não faz o menor sentido.
- Como não? Faz todo o sentido!
- Se perder pra se encontrar? Como?
- Tem gente que não sabe onde está.
- E, pra descobrir, tem que se perder? Não! É aí que não faz sentido.
- Tem gente que consegue descobrir sem sair do lugar, tem gente que já nasceu sabendo, tem gente que nem quer saber. Mas há outras pessoas, também. Há aquelas que precisam sair por aí, dar uma volta por outros lugares, vai que o lugar delas não era aquele. E, se for, elas descobrem o caminho de volta, sempre descobrem. Entende?
- Hm. Mas e se elas não encontrarem?
- Continuam procurando.
- Eu não posso indicar o caminho?
- O que te faz pensar que tu sabes o lugar de alguém?
- Não é que eu saiba, eu poderia só avisar quando elas não sabem que andam em círculos...
- Poderias. Tu avisarias e elas não entenderiam, não aceitariam. Não é assim que acontece? Cada um acaba encontrando o próprio caminho sozinho. Por isso eu digo, elas continuam procurando.
- E se desistirem de procurar?
- Bom... Aí é problema delas.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ai, guri, o que tu tens ultimamente? De novo de novo de novo as palavras te escapam entre os dedos e caem e quicam e riem de ti. Talvez seja medo de entender, de ver a verdade estampada nas letras que correm silenciosas à tua frente, elas sempre sabem melhor que tu. E quiseste tanto dizer das coisas que te tomam e te cercam, mas sabes que não consegues, não és capaz, vais acabar por escrever textos metalingüísticos em português recém-ultrapassado. Por falar nisto, te descobriste quase conservador em certos aspectos, não?, preguiça de mudar o pouco que entendes enquanto procuras sempre novos conceitos pra fingir que sabes o que nunca vais saber. Já tentaste ser niilista, existencialista, racionalista, te descobriste só um capitalista consumista desvairado que compra idéias novas porque elas não pedem dinheiro. Estudando, trabalhando, mendigando sentimentos novos, idéias novas, lugares novos, pessoas. E as coisas que vêm e vão, podem ir, não te importas, viras as costas sem nem adeus. E as coisas que vêm e ficam te consomem, no final não sabes mais te separar do emaranhado que criaste entre sonho que se sonha junto e os sonhos separados, os sonhos que se tem dormindo e os que se tem acordado, te perdes entre o sonho e a realidade, coitado. Tens vontade de dormir. Dormir até passarem todas as horas descartáveis, todos os barulhos de carro, todos os raios de sol, todos os pensamentos avulsos e quebrados de quinta-feira à tarde (à tarde?). Não sabes nem que horas são. E pensar em levantar e cumprir tua dose diária de obediência, de sobrevivência, te dá nojo. Vontade de viver em outro mundo, aquele paralelo que tu tens, todo mundo tem, aquele que tem grama e sol e pés de ameixa carregados e passarinhos e borboletas amarelas, mas sem a rua, sem os carros, sem o ponto de ônibus, sem a distância, sem a saudade. E falas e falas e falas de coisas rasas porque esqueceste a senha para entrar em ti e não consegues roubar tuas palavras porque não queres tocar e bagunçar os sentimentos agora organizados de um jeito que podes compreender. Justo. Não os toques, então. Deixa-os intactos, um dia eles falarão por ti. Ou.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Pois é

O pensamento calou, assim, de repente. Logo o dela. Ela, que sempre se alimentou deles como um carro se alimenta do combustível. E, de repente, o clichê pareceu novo, como deve ser. Como deve ser, as palavras tornaram-se ineficientes, insuficientes, como costumam ser diante de algo maior. Não importava mais depois de amanhã. Pela primeira vez. Ela gostava de primeiras vezes, e de todas as vezes que parecem primeira. Era só que parecia tão certo sentir o coração dele batendo tão perto e tão forte que ela chegou a achar que era o dela. Tão doce, tão desesperado que, em outros tempos, ela poderia achar que fossem um só. E o que é o tempo quando se compreende que ele só leva embora o que não foi escrito? Que o sentimento gera o ato que ecoa perpétuo no existir das coisas etéreas e divinas? O que é o medo quando está certo o agora? Eu levo comigo, e a certeza conforta tanto quanto o abraço. Realmente não importa o depois de amanhã, mesmo sabendo que ele vem, o desgraçado. Faço-me barreira para seus obstáculos, problema dele. Pode tentar levar o sorriso, a respiração, pode tentar lavar a minha cara. Sem sucesso. Porque agora eu sei - o tempo me disse - que eu consigo o que eu quero. E eu sei o que eu quero. Inédito. A fuga do clichê? Que importa? Encontrei um algo importante que apaga a importância do resto, e todo o mundo sabe que resto é resto, virou lixo porque a gente não quer mais. Vez ou duas eu pensei que quase sempre a intensidade das coisas é inversamente proporcional ao tempo que elas duram, e então percebi que o depois segue o amanhã, que é mutável. Não faz sentido, que bom. Seja como for, dure (ou não dure) o que durar.

Pois é, não deu
Deixa assim como está sereno
Pois é de Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
Avisa que é de se entregar o viver
Pois é, até
Onde o destino não previu
Sem mais, atrás vou até onde eu conseguir
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar.

domingo, 20 de julho de 2008

Grito silencioso

Eu não entendo a ausência. Ela faz a gente sentir falta do que ainda tem, e do que nunca teve. Faz o silêncio dar eco, o invisível ficar borrado. A urgência desesperada de quem aguarda o desconhecido, sem distração, ou a intensificação distanciada de algo que já não era presente, o simples corte das possibilidades raramente bem aproveitadas. Quando as palavras são um refúgio e, de repente, não são mais suficientes... algo errado. Eu quero a cura, eu quero a calma. Eu quero aquietar esse monstro que viu em mim um abrigo nos últimos dias. O que diabos há de errado comigo? Tudo está bem. Tudo está como eu queria, como eu poderia querer. Mas falta. Falta aquilo, aquela coisa que eu já me acostumei a não saber o que é. Falta você, e falto eu também. E eu sinto ausência. Uma ausência que não pode ser alimentada somente de presença. Precisa mais. Precisa um daqueles momentos de comunhão, de compreensão, de cumplicidade e de tantas outras coisas que também não podem se espremer em palavras. Eu preciso. Tanto. Preciso calar essa besta desvairada que me arranha por dentro com unhas de vidro, que me faz sangrar um sangue que acabou de reaprender o caminho ao coração que não pulsava. Nunca antes o tamanho do mundo havia me incomodado tanto quanto ultimamente. Eu não sabia... que o mundo lá fora podia ser maior do que este aqui dentro. E que esses dois mundos podiam se fundir desse jeito. E que, depois de misturados, era tão difícil separar.