quarta-feira, 18 de março de 2009

Ela o olhou nos olhos e desviou. Quis dizer que o amava também, mas sabia que amava todo o resto um pouco mais. Foi confuso, no início, estar na posição de pessoa amada em uma relação unilateral. Mas ela deu um jeito. Decidiu que não corresponder também doía. Porque perdera a chance de amar, talvez? Ou porque a dor do outro a atingia? Tanto faz. O importante é que doía e, tão cedo ela aprendera a conviver com a dor, que tornaram-se companheiras - ela precisava sofrer para manter-se.
Desviou o pensamento da dor recém criada - e com a qual já se havia conformado -, resolveu voltar àonde estava. Pensou em dizer que era tarde demais, que ela quase o havia amado também, que eles andavam em passos diferentes. Não teve coragem. Pensou em outras explicações para o que não se explica, e, não sabendo o que fazer, teve a pior reação possível:
ela riu. Um riso nevoso, como se ri de humor negro: com culpa. Uma risada para quebrar o silêncio - e que quebrou algo mais.

domingo, 15 de março de 2009

um laço, um nó

você se lembra de uma pessoa com um sorriso e um nó de marinheiro no peito. por quê? porque ela foi importante. porque você foi embora - e ela ficou. e, principalmente, porque você pensa que nunca mais vai ouvir falar dela de novo. você guarda uma lembrança, uma folha de caderno escrita com caneta hidrocor, e sabe que nunca, NUNCA aquele papel vai ser esquecido. aquele pedaço rasgado de caderno que é a única prova física de que aquela pessoa importante realmente existiu, e de que ela também se importou com você. e, de repente, em um domingo de sol como tantos outros, BÁ! ela existiu mesmo, do jeito que eu me lembrava! ela é linda por dentro, por fora e está feliz. e eu também! as duas pontas da fita formaram, finalmente, um laço. um nó de marinheiro.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Ela chorou sentada sobre os escombros do que um dia foi. Os olhos ardiam, como se o pó enraizasse na nascente do rio salgado que escorria, descontrolado. Os mesmos olhos que brilhavam furtacor, hoje sustentavam o brilho branco-leitoso, opaco, quase fosco da perda do que não volta, do que já não se tinha. Mas a lembrança triste despencara sobre as alegres-inocentes-infantis com a mesma força com que a parede despencara sobre a grama seca já sem rosas, já sem latidos, já sem ameixas, já sem hibiscos. Ficou só espinho, só sobrou caroço. O osso. O esqueleto de uma vida sem carne, sem sangue. A cartilagem consumida pela terra, aquela que ligava e mantinha o organismo funcionando. Peças separadas, sem encaixe, cada uma sendo devorada por um verme diferente. Sem pulso. Sem vida.
"Um curinga é um pequeno bobo da corte; uma figura diferente de todas as outras. Não é nem de paus, nem de ouros, nem de copas e nem de espadas. Não é oito, nem nove, nem rei e nem valete.
É um caso à parte; uma carta sem relação com as outras. Ele está no mesmo monte das outras cartas, mas aquele não é seu lugar. Por isso ele pode ser separado do monte sem que ninguém sinta falta dele."



"Se no meio de todas as pessoas houver apenas uma que se surpreenda com a vida a cada instante e tenha a sensação, toda vez que isso acontece, de estar diante de algo fabuloso e enigmático... se apenas uma delas experimentar a vida como uma aventura fantástica... e se ele ou ela experimentar essa sensação todos os dias... ele ou ela será um curinga no baralho."


E assim você se contenta com a gaveta. Com o lugar na coleção de peças-não-encaixáveis. Toma consciência da razão de ser das regras impostas por todos/ninguém: não deixar que o jogo seja fácil demais. E não mais lamenta não participar dele. Às vezes ainda bambeia as pernas com o peso da responsabilidade de não ter um número, de não ter um naipe. De ser capaz de se encaixar em qualquer lugar, mas não pertencer a nenhum. De ser o eterno substituto, ocupando um lugar que não é seu. Mas não quebra mais a cabeça tentando entender por que não tem nenhum símbolo gravado nas costas. Sabe tanto quanto os outros, mas ainda assim se pergunta. Ainda assim se surpreende com a presença ou ausência de respostas. Ainda assim as procura e, ainda assim, sem fazer parte do jogo, entende as regras como ninguém, e agradece por não precisar segui-las. Pelo menos a maior parte do tempo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Desenfreado


"Você me avisar, me ensinar
Falar do que foi pra você
Não vai me livrar de viver."


Ele se via como alguém em frente a uma bifurcação que levava a dois caminhos certos, apesar de diferentes. Eu o via como alguém de frente para um muro, com o pé no acelerador. Por já ter acelerado contra um muro pensando estar seguindo um caminho, tentei fazê-lo parar. Teria eu mesmo pisado no freio, se pudesse. Não pude.
Sabe, dói. Dói ouvir a batida e saber que logo vou ver os estilhaços. Dói não poder fazer nada enquanto te vejo ir de encontro a uma parede tão sólida. Irreparável. Dói imaginar a droga que te injetaram e o efeito que ela te causa - muito além de alucinação. Dói ver teu vício, dói mais ainda te ver gastando teu sangue pra sustentá-lo. E vai doer tirar teu corpo das ferragens, mesmo ainda com vida. Teu sangue espalhado no asfalto - dói. Dói saber que vai doer mais em ti.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Capítulo II

"Tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essa história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, veja só que coisa mais individualista elitista capitalista, só queria ser feliz, cara. Gorda, burra, alienada e completamente feliz."

(Caio F.)


Até que chegue o verão.


Solução:
aproveitar ao máximo meus últimos dias de primavera, mentalizar as flores e borboletas para não esquecer que logo essa paisagem vai se transformar em folhas secas no chão. Por favor.

domingo, 9 de novembro de 2008

Mais

Talvez, a primeira coisa que ele soube a respeito dela é que ela tinha medo. Ou talvez ele a tenha visto como alguém que segue em frente, apesar disso. Eu não poderia dizer, afinal, o que nela atraiu aquele menino com o coração tão grande, e tão mais forte do que ele acreditava ser. Sei que, desde o primeiro contato, ela sentiu que ele era especial. E os sentimentos dela não erram quando se trata desse tipo de coisa.
Comunicaram-se. E uma das coisas importantes que eu aprendi na faculdade é que a comunicação só se dá quando há entendimento. Eles realmente se comunicaram. Houve troca, houve identificação. E houve, sobretudo, entendimento. 

Por algum motivo, ela achou que ele não se via com muita clareza. Ele deve ter pensado o mesmo dela. Talvez tivessem razão, porque eles já começaram na essência. Não havia vozes, não havia rostos. Havia apenas o mais importante: os sentimentos. Aqueles sentimentos que se guardam na borra do café, no fundo de qualquer coisa, que precisam ser revirados com uma colher. Sentimentos que, por mera honestidade, descobriram-se verdadeiros. E eles se descobriram parecidos. E, por não se conhecerem, conheceram-se muito bem. Por não partilharem das banalidades cotidianas, por não dividirem os números desnecessários, por não se deixarem distrair com o supérfluo superficial. Há maneira melhor de começar a conhecer uma pessoa? Eles começaram por dentro. Pelas dores. Ele ainda sofria por um amor muito puro e bonito, que há muito veio a se perder. E ela sofria por outro tão impossível que nem ao menos chegou a nascer.
Eles dividiam angústias.
Mas não havia só dor. Dividiram tudo o que puderam. Gostos, histórias, lembranças, risadas, maneiras de ver o mundo e extrair aprendizado das coisas. E, assim, a amizade nasceu, tão pura que não sabia desejar nada além do bem.

Dividiam cada vez mais. Ela viu o homem por trás do menino sensível, e ele viu que aquela mulher não passava de uma menina que tinha medo da vida. Então, com o tempo, surgiu para os dois a necessidade de dividir mais. Mais do que havia sido possível até então. Mais do que palavras e imagens, mais do que idéias trocadas à distância. E a menina viu que tinha medo. Muito medo. Medo de perder o amigo, medo de confundir as coisas, medo que aquela necessidade indicasse que o sentimento havia mudado - o que ela, apesar de saber, ainda tentava esconder de si mesma. E medo, principalmente, de decepcionar o menino. Porque ela não sabia, ou tentava esconder de si mesma, que ele sentia o mesmo por ela. E ele tinha medo do medo dela. Medo de que isso a fizesse fugir.
Mas ela seguiu em frente, apesar do medo. E eles puderam finalmente dividir os rostos e as vozes, puderam finalmente dividir o mesmo ar. E dividiram os olhares e expressões e cheiros e sabores e borboletas no estômago. As mesmas borboletas, o mesmo casulo. Ele segurou a mão dela com tanta força que, naquele momento, ela soube que aquelas mãos não iriam mais se soltar. Apesar da distância que não tem piedade, apesar do tempo que teriam que esperar, eles só iriam dividir cada vez mais. E mais.
"Sweety, you can't disappoint me. Because, whatever you are, is exactly what I want."

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Porque eu odeio o verão.

CAPÍTULO I


As pessoas estranham quando eu digo que não gosto do verão. Como pode uma pessoa morar em um monte de terra cercado de quarenta e duas praias por todos os lados, num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, e não gostar do verão? 
Eu explico. 
A história começa hoje, ainda na primavera. Sol. Muito sol. Muuuuuito sol. Mesmo. Tudo lindo e maravilhoso, se eu fosse à praia em vez de pegar um ônibus até o centro da cidade, onde você esbarra em três pessoas a cada metro, na melhor das hipóteses. E se depois eu não tivesse que pegar outro ônibus até um shopping que, teoricamente, fica perto do lugar onde eu trabalho, e depois não tivesse que ir caminhando até o local citado, porque, bom, era pra ser perto. Mas, a pé, num dia de sol, com pressão baixa e sapato novo, carregando uma bolsa que pesa setenta e três toneladas, em pleno mês de novembro, na cidade de Florianópolis, NADA é perto. 
Tudo bem. 
Três horas, quarenta e cinco minutos e vinte e sete segundos depois, com direito a parada na padaria pra comprar um saco de pão-de-queijo e um suco de caixinha - com moedas contadas, diga-se de passagem - que substituem o já saudoso almoço, eu chego ao trabalho, dez minutos atrasada. A partir daí, tudo ocorre bem. Normalmente, melhor dizendo. Eu trabalho cinco horas por dia, devido ao meu posto de estagiária de Design Gráfico que teve o azar de ter que trabalhar uma hora a mais do que o (meio) período normal. Continuando, cheguei ao trabalho, e tudo transcorreu normalmente. Quatro horas, trinta e cinco minutos e cinqüenta e quatro segundos depois, o tempo fecha. As nuvens resolvem se reunir pra dar uma descarregadinha bem em cima daquele monte de terra cercado de água por todos os lados, que as pessoas costumam chamar de ilha. Bem em cima daquela, ou melhor, desta ilha. Exatamente quando faltam vinte e quatro minutos e seis segundos para eu, depois de pagar meus dez minutos de atraso, claro, cumprir todos os dezoito mil segundos de trabalho e voltar para casa. 
E claro que não foi uma chuvinha qualquer. Em Florianópolis, há três tipos de chuva: o chuvisco, aquela chuva fininha à qual nós não damos o mínimo crédito, a ponto de sairmos sem guarda-chuva, mas que molha mais do que ducha Corona no modo verão; a chuvinha de verão, aquela maldita tromba d'água que dura exatos dez minutos - aqueles dez minutos que constituem o espaço de tempo que você leva, a) para andar da faculdade até o ponto de ônibus, b) para andar da areia até o carro quando vai à praia, c) para fazer qualquer coisa que dure dez minutos ou menos e que só pode ser feita naqueles dez minutos; e por último, mas não menos importante - acredite -, vem o terceiro tipo: o dilúvio, conhecido no resto do país em sua melhor forma como ciclone extra-tropical, ou Furacão Catarina. É aquele tipo delicioso de chuva que aparece do nada no meio de um dia de sol, se forma em, no máximo, cinco minutos e vem acompanhado de raios, de trovões ensurdecedores e de rajadas de vento que ultrapassam a velocidade da luz, vindos de todos os lados - inclusive de baixo. Sim, de baixo. Não há guarda-chuva que resista. 
Acho que, a esta altura do campeonato, não é preciso adivinhar que tipo de chuva caía enquanto eu caminhava meus dez minutos de volta pra casa. Claro, o dilúvio, disfarçado de chuva de verão. Ou vice-versa. Aquele que te faz temer que a ilha afunde a qualquer momento e te faz agradecer à sua mãe por ter te matriculado naquele infeliz curso de natação quando você tinha doze anos e queria fazer aulas de bateria, aquele mesmo que faz você avisar a todos os seus amigos com sonhos mirabolantes de se mudarem para cá e ir à praia todos os dias para trazerem seus botes infláveis e andarem com eles vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. 
Como era de se imaginar, a única rua pela qual eu passo na volta do trabalho estava alagada. Não inteiramente alagada, porque ela é bem grande para uma rua que une nada a lugar nenhum, mas alagada o suficiente para eu afundar até os joelhos na poça megalomaníaca que se formou em um tempo recorde de dois minutos, enquanto carros passam competindo para ver quem joga o esguicho mais alto em cima da minha triste e encharcada figura, e eu caminho enquanto o vento tenta levar meu guarda-chuva para encontrar seus colegas no famoso Recanto dos Guarda-Chuvas Perdidos, um lugar muito procurado, mas que continua um mistério para os seres-humanos, e minha mão dói porque eu tento segurar só a parte de madeira do cabo, com medo dos raios. 
Por fim, avisto meu prédio, ando uns trinta metros além dele porque a poça do lado de lá está menor, volto, entro no condomínio, meu guarda-chuva engancha no portão, eu desejo boa-sorte ao vizinho que encontro nas escadas, entro em casa deixando pegadas da porta até o meu quarto, onde torço a calça jeans em cima de um pano de chão, e consigo, com muito custo, me livrar dela. Choro ao pensar que ainda hoje preciso descer as escadas de novo pra entregar um filme maldito que não tive tempo de assistir, e a locadora fica do outro lado da rua, a dois rios de distância. Isso tudo sem contar com o fato de que minhas roupas estavam no varal, e provavelmente já estavam secas antes do dilúvio. Lógico. 
Mas o pior não é isso. Não é nada disso. O pior é que hoje foi só o começo. Foi só uma demonstração do que vai ser o resto do verão, até que o calor se canse de fazer todo o ciclo da água duas vezes por dia e nos abandone, mais do que na hora, e o inverno chegue pra levar embora todo o suor salgado e salpicado de areia que o verão nos deixou.
Just in time.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Dor e cura. Dor é cura.

Sei que minhas perguntas são o dedo sujo na ferida aberta, mas, perguntando, descobri tuas palavras como aquele remédio que arde e sara e faz a pele fechar. E, ainda que a cicatriz permaneça visível e brilhante por todos os nasceres de sol até o fim de nossas vidas, nenhuma faca é capaz de abrir uma ferida que eu fechei, que nós fechamos. Por isso eu pergunto e a resposta me arde e me queima e me transborda numa dor úmida e salgada, numa dor quase desumana e, ainda assim, me faz bem tua resposta. Porque tu és minha resposta. E só tu tens o poder de me curar.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Aos olhos alheios

"Um dia tu vais compreender que não existe nenhuma pessoa totalmente má, nenhuma pessoa completamente boa. Tu vais ver que todos nós somos apenas humanos. E sofrerás muito quando resolveres dizer só aquilo que pensas e fazer só aquilo que gostas. Aí sim, todos te virarão as costas e te acharão mau por não quereres entrar na ciranda deles, compreendes?"

Teus hábitos se tornarão reações inusitadas, teu sono será interpretado como desinteresse, teu cansaço será confundido com rudeza. Qualquer vírgula ganha um poder de exclamação, e tudo o que você pede é que, por favor, não haja nenhum ponto final na sentença. 
E a mudança foi para ti, mas não em ti. 
Procuram motivos para sentir incômodo com tua felicidade, enxergam mudanças onde não houve, te acusam de ser quem sempre foste, como se, de repente, tivessem se dado conta do que já sabiam.
Pelo menos o Caio me entende.