Ai, guri, o que tu tens ultimamente? De novo de novo de novo as palavras te escapam entre os dedos e caem e quicam e riem de ti. Talvez seja medo de entender, de ver a verdade estampada nas letras que correm silenciosas à tua frente, elas sempre sabem melhor que tu. E quiseste tanto dizer das coisas que te tomam e te cercam, mas sabes que não consegues, não és capaz, vais acabar por escrever textos metalingüísticos em português recém-ultrapassado. Por falar nisto, te descobriste quase conservador em certos aspectos, não?, preguiça de mudar o pouco que entendes enquanto procuras sempre novos conceitos pra fingir que sabes o que nunca vais saber. Já tentaste ser niilista, existencialista, racionalista, te descobriste só um capitalista consumista desvairado que compra idéias novas porque elas não pedem dinheiro. Estudando, trabalhando, mendigando sentimentos novos, idéias novas, lugares novos, pessoas. E as coisas que vêm e vão, podem ir, não te importas, viras as costas sem nem adeus. E as coisas que vêm e ficam te consomem, no final não sabes mais te separar do emaranhado que criaste entre sonho que se sonha junto e os sonhos separados, os sonhos que se tem dormindo e os que se tem acordado, te perdes entre o sonho e a realidade, coitado. Tens vontade de dormir. Dormir até passarem todas as horas descartáveis, todos os barulhos de carro, todos os raios de sol, todos os pensamentos avulsos e quebrados de quinta-feira à tarde (à tarde?). Não sabes nem que horas são. E pensar em levantar e cumprir tua dose diária de obediência, de sobrevivência, te dá nojo. Vontade de viver em outro mundo, aquele paralelo que tu tens, todo mundo tem, aquele que tem grama e sol e pés de ameixa carregados e passarinhos e borboletas amarelas, mas sem a rua, sem os carros, sem o ponto de ônibus, sem a distância, sem a saudade. E falas e falas e falas de coisas rasas porque esqueceste a senha para entrar em ti e não consegues roubar tuas palavras porque não queres tocar e bagunçar os sentimentos agora organizados de um jeito que podes compreender. Justo. Não os toques, então. Deixa-os intactos, um dia eles falarão por ti. Ou.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Pois é
O pensamento calou, assim, de repente. Logo o dela. Ela, que sempre se alimentou deles como um carro se alimenta do combustível. E, de repente, o clichê pareceu novo, como deve ser. Como deve ser, as palavras tornaram-se ineficientes, insuficientes, como costumam ser diante de algo maior. Não importava mais depois de amanhã. Pela primeira vez. Ela gostava de primeiras vezes, e de todas as vezes que parecem primeira. Era só que parecia tão certo sentir o coração dele batendo tão perto e tão forte que ela chegou a achar que era o dela. Tão doce, tão desesperado que, em outros tempos, ela poderia achar que fossem um só. E o que é o tempo quando se compreende que ele só leva embora o que não foi escrito? Que o sentimento gera o ato que ecoa perpétuo no existir das coisas etéreas e divinas? O que é o medo quando está certo o agora? Eu levo comigo, e a certeza conforta tanto quanto o abraço. Realmente não importa o depois de amanhã, mesmo sabendo que ele vem, o desgraçado. Faço-me barreira para seus obstáculos, problema dele. Pode tentar levar o sorriso, a respiração, pode tentar lavar a minha cara. Sem sucesso. Porque agora eu sei - o tempo me disse - que eu consigo o que eu quero. E eu sei o que eu quero. Inédito. A fuga do clichê? Que importa? Encontrei um algo importante que apaga a importância do resto, e todo o mundo sabe que resto é resto, virou lixo porque a gente não quer mais. Vez ou duas eu pensei que quase sempre a intensidade das coisas é inversamente proporcional ao tempo que elas duram, e então percebi que o depois segue o amanhã, que é mutável. Não faz sentido, que bom. Seja como for, dure (ou não dure) o que durar.
Pois é, não deu
Deixa assim como está sereno
Pois é de Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
Avisa que é de se entregar o viver
Pois é, até
Onde o destino não previu
Sem mais, atrás vou até onde eu conseguir
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar.
Deixa assim como está sereno
Pois é de Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
Avisa que é de se entregar o viver
Pois é, até
Onde o destino não previu
Sem mais, atrás vou até onde eu conseguir
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar.
domingo, 20 de julho de 2008
Grito silencioso
Eu não entendo a ausência. Ela faz a gente sentir falta do que ainda tem, e do que nunca teve. Faz o silêncio dar eco, o invisível ficar borrado. A urgência desesperada de quem aguarda o desconhecido, sem distração, ou a intensificação distanciada de algo que já não era presente, o simples corte das possibilidades raramente bem aproveitadas. Quando as palavras são um refúgio e, de repente, não são mais suficientes... algo errado. Eu quero a cura, eu quero a calma. Eu quero aquietar esse monstro que viu em mim um abrigo nos últimos dias. O que diabos há de errado comigo? Tudo está bem. Tudo está como eu queria, como eu poderia querer. Mas falta. Falta aquilo, aquela coisa que eu já me acostumei a não saber o que é. Falta você, e falto eu também. E eu sinto ausência. Uma ausência que não pode ser alimentada somente de presença. Precisa mais. Precisa um daqueles momentos de comunhão, de compreensão, de cumplicidade e de tantas outras coisas que também não podem se espremer em palavras. Eu preciso. Tanto. Preciso calar essa besta desvairada que me arranha por dentro com unhas de vidro, que me faz sangrar um sangue que acabou de reaprender o caminho ao coração que não pulsava. Nunca antes o tamanho do mundo havia me incomodado tanto quanto ultimamente. Eu não sabia... que o mundo lá fora podia ser maior do que este aqui dentro. E que esses dois mundos podiam se fundir desse jeito. E que, depois de misturados, era tão difícil separar.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Ando com uma vontade de deitar e não levantar mais, porque sei que não tem nada esperando por mim lá fora, porque tu não estás, eu não estou, eu não quero estar. Tu não estás a caminho, tu não sabes que te espero, tu não sabes que existo, como às vezes me pergunto se existes e não acho resposta mesmo olhando por tudo ao redor, mesmo na grama e no céu, eu só vejo passarinhos e borboletas, não sei voar, nada grita um sim nem um não, ou grita. Mas eu não procuro não. E a gente não encontra o que não procura, não. E, de achar que não vens, me dá uma vontade, mas uma vontade de abraçar o meu colchão, porque quase dá pra fingir que ele me abraça de volta e eu queria tanto, mas tanto saber que você vem. Que me desse um motivo pra continuar espiando por cima do ombro. Porque eu sei que, mesmo que você exista, não sabe o caminho da minha cama, e eu queria sair pra gritar ao mundo, estou aqui, existo, não desista!, mas se até eu já desisti...
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Tanto bate até que fura?
De repente, senti meu coração bater mais forte.
Não.
Acho que sim, mas de longe. Como se fosse só o eco.
Estranho saber que tem alguma coisa pulsando acelerada dentro de si mesmo e não sentir.
Ou sim.
Como ouvir um som muito, muito alto - só que de baixo d'água.
Não.
Acho que sim, mas de longe. Como se fosse só o eco.
Estranho saber que tem alguma coisa pulsando acelerada dentro de si mesmo e não sentir.
Ou sim.
Como ouvir um som muito, muito alto - só que de baixo d'água.

Quando se está muito tempo no fundo, o medo de emergir.
Quando se lembra de estar vivo, o medo de afogar-se.
Coração de pedra não pulsa, meu amor.
Quando se lembra de estar vivo, o medo de afogar-se.
Coração de pedra não pulsa, meu amor.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Blefe
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Here comes July...
Ok, chega de basckspace. Vou tentar de novo.
Mas não seria preciso sentimento para expressar?
Seria a falta de sentimento um... sentimento?
Tanto faz. Expresso meu anti-sentimento, que seja.
Porque não é possível que seja culpa do frio.
O frio aumenta nossa sede de calor, e só.
Ele não esfria, ah, não. Isso é só ilusão.
E, a quem interessar possa, não faço questão.
Ou faço?
O ontem não importa, não quero mais ser de aço.
Não quero ser navalha, nem pele ferida.
Quero ser o sangue que escorre no azulejo gelado,
no vidro suado de todo dia.
Quero ser a borboleta que voa incerta,
batendo as asas na parede do teu estômago.
(de quem?)
Quero confiar em mim a ponto de carregar a verdade nas costas.
Ou desistir de mim a ponto de acreditar.
Esquecer que sentimentos são inventados...
Ou dar adeus ao príncipe encantado.
Ser de uma vez de um lado ou de outro.
Parar de me equilibrar na corda-bamba e cair e quicar,
ou aprender a voar.
Abdicar do trono, me retirar do conflito
e declarar paz no meu coração.
Pôr um ponto final nessa interrogação.
Mas não seria preciso sentimento para expressar?
Seria a falta de sentimento um... sentimento?
Tanto faz. Expresso meu anti-sentimento, que seja.
Porque não é possível que seja culpa do frio.
O frio aumenta nossa sede de calor, e só.
Ele não esfria, ah, não. Isso é só ilusão.
E, a quem interessar possa, não faço questão.
Ou faço?
O ontem não importa, não quero mais ser de aço.
Não quero ser navalha, nem pele ferida.
Quero ser o sangue que escorre no azulejo gelado,
no vidro suado de todo dia.
Quero ser a borboleta que voa incerta,
batendo as asas na parede do teu estômago.
(de quem?)
Quero confiar em mim a ponto de carregar a verdade nas costas.
Ou desistir de mim a ponto de acreditar.
Esquecer que sentimentos são inventados...
Ou dar adeus ao príncipe encantado.
Ser de uma vez de um lado ou de outro.
Parar de me equilibrar na corda-bamba e cair e quicar,
ou aprender a voar.
Abdicar do trono, me retirar do conflito
e declarar paz no meu coração.
Pôr um ponto final nessa interrogação.

Que o gelo derrete eu sei.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Regresso
É como se a angústia fosse o núcleo do átomo: sólida, densa, no meio do vazio. A espera por um abalo sísmico, um meteoro, uma tragédia qualquer que lhe desse motivos para chorar - para sentir angústia por algo concreto, e não pela falta. A indecisão, a incerteza, o vazio não tem peso. O alívio. E a certeza de que o telefone não toca enquanto esperamos, os ouvidos atentos, o coração alerta. Talvez por medo da voz familiar no outro lado da linha... Talvez por medo da estranheza, da decepção. Conformismo ou auto-sabotagem? O velório da esperança confirma a decomposição das emoções restantes, e a falta de fé derruba o chão. Saber é perigoso demais. A vida sem ilusão é como terra sem chuva. Resseca, enfraquece. Depois de um tempo, é impossível plantar, cultivar, construir qualquer coisa em cima do barro rachado. Quão estúpido se pode ser ao esperar por uma semente, sabendo-se um terreno inabitável? As nuvens desistentes já esqueceram o caminho, os pássaros não se aproximam, o vento preferiu sopros de vida. O sol já lhe havia sugado tudo o que podia, causava-lhe dolorosas rachaduras. Por isso esperava pelo terremoto, por uma rocha cósmica que colidisse diretamente com sua secura, com sua solitude que ameaçava transformar-se em solidão. Deixou-lhe voltar a lembrança de quando fora mar. A noite trouxe uma busca incessante por estrelas-cadentes. Elas apenas cortavam o céu, com absurda rapidez. Enterrou a esperança - lembrou-se de que era a terra. Nunca tarde demais.
terça-feira, 17 de junho de 2008
Empréstimo
Vi teu sapato igual ao meu, te senti tão mais eu, mais distante ainda por saber que as semelhanças não são compartilhadas. Por que me sinto tão ausente de ti quando nunca foste realmente presente? E parece que as palavras saem melhor de mim quando são pra ti, talvez por teres me envenenado com elas um dia há tanto tempo, e jamais esqueci que és a ponte entre mim e minha ponte com o mundo. E ainda assim eu vacilo quando penso em deixar tais palavras chegarem a ti. Por que sinto que estou perdendo tempo ao me manter tão paralelamente distante, quando nunca convergimos de fato, e nunca planejamos um encontro com hora marcada? Na dormente falta de inspiração, como tudo vaga a teu encontro? Pois eu sinto que és uma pergunta sem resposta, um enigma que eu não faço tanta questão de decifrar, pois é a especulação incerta que te torna irresistível. E às vezes eu penso que talvez tenha medo de que sejas melhor ainda de perto, e te tornes mais um dos meus vícios. Porque sei que a abstinência seguinte seria inevitável - e insuportável.


E teus olhos ainda transbordam a verdade da qual eu me lembro...
E ainda haveria tanto a ser dito...
Mas as palavras te pertencem, afinal.
E ainda haveria tanto a ser dito...
Mas as palavras te pertencem, afinal.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Dia de quê?

Dia de corações vermelhos, de champagne, de jantar à luz de velas, de declarações românticas, de buquês de rosas, de anéis gravados, de cartões perfumados, de motéis lotados, de solteiros desconsolados. Dia de esperar a noite chegar - ou não. Para mim? Dia frio e nublado, de trabalhar nove horas, de varrer a casa, limpar a mesa e tirar o lixo, dia de jantar com meu pai. Só mais um dia - ou não. Dia de pensar que é só mais um dia, e podia não ser; que um dia do ano reservado a comemorar uma coisa não torna esta coisa essencial, necessária. Dia de perceber que, apesar dos corações, do champagne, das rosas, dos anéis, dos motéis, das declarações e dos cartões não fazerem mal, também não fazem falta. Perceber que um dia comum pode ser especial. Que é muito bom ter uma pessoa que se encontra um degrau acima de todas as outras, e também é ótimo ser esta pessoa para alguém, mas que talvez seja melhor ainda ser esta pessoa para si mesmo. Se alguém chegar a ler isto, provavelmente pensará que se trata de um discurso de encalhada com dor-de-cotovelo, como se a única chance que uma pessoa tivesse de ser feliz envolvesse projetar a responsabilidade de proporcionar esta felicidade nas costas de alguém. Eu quero dividir com alguém, um dia, tudo o que eu conquistar. O que logicamente não me impede de ir longe sozinha enquanto não aparece a tal pessoa, se é que ela existe. É raro. Não vou esperar para ser feliz quando aparecer alguém com a solução para todos os meus problemas. Por isso parabenizo hoje as pessoas que realmente encontraram alguém para dividir, e não para projetar. E faço do meu dia nublado um dia especial.
